A busca pelo sonho olímpico

O que começou com alguns “nãos” levou a uma descoberta da verdadeira vocação acadêmica. Katia Rubio queria ser professora de educação física desde o colégio. Porém, no final do ensino médio veio a primeira frustração: não ser aprovada no vestibular. Em seguida, uma conversa franca com seu treinador de vôlei: se não era para ser professora ou técnica, seria melhor seguir outros rumos, porque, segundo ele, ela não tinha habilidade para o esporte de alto rendimento.

“A conversa com meu técnico foi muito importante porque ele me deu o elemento pra ser racional. É muito doloroso se defrontar com seus limites e com as suas possibilidades, mas aquilo me levou a redirecionar a minha energia para um outro fazer”, avalia. Foi assim que a atual docente da EEFE-USP resolveu mudar completamente de foco e fazer jornalismo, carreira em que atuou ou exerceu por mais de dez anos, mas que não lhe trazia satisfação profissional.  

Somente em seu segundo curso de graduação – Psicologia na PUC-SP – Katia Rubio realmente se encontrou, quando passou a estudar a Psicologia do Esporte. O retorno ao desejo de infância a levou à pesquisa na área e, mais especificamente, a uma paixão de longa data: os Jogos Olímpicos. “Era um encantamento de infância, observar os atletas olímpicos com habilidades tão fora de padrão. No doutorado (defendido em 2001 na Faculdade de Educação – USP), estudei a formação do processo de identidade dessas pessoas. Isso despertou em mim o desejo de conhecer cada vez mais esse universo e eu comecei a estudar a história dos atletas brasileiros que participaram dos Jogos Olímpicos. A pesquisa me levou a fazer as pazes com o meu passado”, relata.

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Reunião no Centro de Estudos Socioculturais do Movimento Humano – EEFEUSP

A professora busca compreender a dinâmica emocional e social do atleta olímpico brasileiro, os elementos que o levam a se mobilizar mesmo diante da escassez de recursos essenciais como infraestrutura e financiamento. Ela explica ser necessário aprofundar-se no universo em que o atleta se desenvolve e nas razões pelas quais ele determina seus objetivos. Após esse conhecimento, é possível propor estratégias que levem à maximização de seu rendimento. A pesquisadora dispõe de metodologias das histórias de vida e narrativas biográficas para adentrar nesse mundo, levando em conta também o próprio “caldeirão multiétnico e multicultural que é o Brasil”.

Um dos enfoques adotados em suas pesquisas foi o estudo das mulheres no cenário olímpico brasileiro. A docente explica que o esporte nasceu como uma prática masculina e que a presença feminina foi uma conquista árdua de mulheres que decidiram enfrentar o sistema. Embora esse processo tenha começado no final do século XIX, o esporte feminino ainda não se consolidou como uma prática de direito e as disputas permanecem não só no nível competitivo como também no nível organizativo. Isso é exemplificado pela presença pífia de mulheres dirigentes nas federações e confederações e pelo fato de que as atletas recebem salários menores que os homens.

Nessa pesquisa, surpreendeu o fato de as entrevistadas não admitirem sofrer discriminação pelo fato de serem mulheres. A professora atribui isso justamente a um fator cultural: “nós somos educadas a naturalizar o preconceito”. Assim, o próprio discurso das atletas procura justificar os salários mais baixos porque os homens, em tese, treinariam mais ou competiriam mais – um discurso construído para justificar a situação, mas sem bases reais.

Os estudos da docente em conjunto com seu Grupo de Estudos Olímpicos do Centro de Estudos Socioculturais do Movimento Humano levaram ao lançamento do livro “Atletas Olímpicos Brasileiros”. A publicação conta com 1796 verbetes biográficos escritos a partir da coleta de depoimentos e documentações sobre todos os esportistas brasileiros que já participaram dos Jogos. A obra foi editada pela SESI-SP Editora e lançada em 2015. O livro traz à tona histórias muitas vezes desconhecidas do público em geral – em alguns casos, nem mesmo a família do atleta tinha conhecimento da existência de um parente olímpico.

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Katia Rubio no lançamento do Livro “Atletas Olímpicos Brasileiros” (Ed. SESI-SP)

Este ano, a docente está pesquisando com exclusividade no Instituto de Estudos Avançados da USP. Ela foi contemplada pelo edital Programa Ano Sabático para estudar os deslocamentos nacionais e internacionais e processos migratórios do atleta ao longo de sua carreira. A professora explica que muitos atletas hoje em dia buscam oportunidades de trabalho no exterior. Isso leva a um processo de adaptação que envolve mudança de residência, afastamento da família e de seu local de origem. Essas mudanças em geral acontecem quando o atleta ainda é muito jovem e está em um momento de busca pela fixação de sua identidade. Isso pode causar, no futuro, sérias consequências psicológicas e sociais.

O sacrifício de morar no exterior em busca de oportunidades e condições para conquistar o sonho olímpico remete mais uma vez ao estudo das fortes razões pelas quais o atleta persiste na carreira esportiva. “Há uma mobilização pessoal que não os deixa desistir e essa força é que produz o encantamento da pesquisa. Eles são atletas, mas se a gente abre isso pra sociedade como um todo, nós temos outros brasileiros que também superam a barreira da impossibilidade material, intelectual e se destacam em um mundo cada vez mais padronizado. É esse sujeito fora da média que me encanta”, conclui a pesquisadora.

 

 

 

 

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