Exercício e coração em foco

Quais os melhores exercícios para se prescrever a pessoas hipertensas? Em qual horário é melhor esses indivíduos fazerem atividade física? Por que a pressão arterial diminui após uma sessão de exercícios? Quais fatores influenciam esse efeito, chamado de “hipotensão pós exercício”? Esses são apenas alguns dos questionamentos que a professora Cláudia Forjaz e seus orientandos fazem em suas pesquisas.

Desde 2001, a docente é coordenadora do Laboratório de Hemodinâmica da Atividade Motora (LAHAM), onde estuda, principalmente, os efeitos do exercício físico na hipertensão arterial e em outras doenças cardiovasculares, como a doença vascular periférica. A partir de pesquisas com pessoas portadoras dessas doenças e por meio de testes envolvendo exercícios de diferentes tipos, duração e intensidades, Cláudia analisa os efeitos dos exercícios na pressão arterial e os mecanismos por trás desses efeitos, investigando tanto o exercício aeróbio quanto o de força.

Exercício e hipertensão

A professora começou a realizar estudos com a população hipertensa ainda em seu mestrado. Ela ressalta a relevância dessa doença na saúde pública, explicando que cerca de 30% da população tem pressão alta, porcentagem que aumenta para cerca de 50% nos idosos. Além das consequências à saúde e qualidade de vida dos pacientes, essa condição é um dos principais fatores de risco para outras doenças cardiovasculares, como a doença coronariana, que pode levar ao infarto, e a doença cerebrovascular, que pode levar ao acidente vascular cerebral, o conhecido derrame.

No Laboratório, os efeitos do exercício físico são estudados de forma aguda ou crônica. No primeiro caso, pesquisa-se o efeito de uma sessão de exercício no comportamento da pressão arterial durante a execução do exercício e num período de 24 horas pós-exercício. Já os efeitos crônicos referem-se ao efeito de um período de treinamento regular na pressão arterial. Assim, os experimentos são mais complexos, pois exigem que o voluntário tenha aderência ao programa de treinamento proposto pelo pesquisador por período mais prolongado – três meses, por exemplo.

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Pesquisador realiza testes no Laboratório de Hemodinâmica da Atividade Motora da EEFE

Em uma das linhas de pesquisa mais recentes, a professora analisa os efeitos do exercício de força em hipertensos. Ela explica que, anteriormente, esse tipo de treinamento era contraindicado a pessoas com problemas cardíacos devido ao aumento da pressão arterial causado: “O exercício de força implica em uma alta sobrecarga cardiovascular, quer dizer, existe um pico elevado de pressão arterial durante sua execução, principalmente em pessoas com doenças cardiovasculares, como a hipertensão”.

Mesmo assim, a docente esclarece que a musculação com cargas e níveis adequados pode trazer benefícios a esses pacientes e, por isso, o assunto é abordado no laboratório: “o hipertenso não é só pressão arterial, ele tem músculos e ossos e um treinamento exclusivamente aeróbio, embora traga benefícios cardiovasculares, tem pouco efeito na musculatura. Por outro lado, o treinamento de força melhora a saúde muscular e óssea. Assim, o exercício de força para o hipertenso é recomendado como complemento ao aeróbico, ou seja, ele não reduz a hipertensão, mas ajuda a manter a saúde global e qualidade de vida desde que aplicado com um protocolo de treinamento ajustado para diminuir o risco durante a execução”.

Exercício na doença arterial periférica

A segurança e o benefício de se prescrever exercícios às populações com doenças crônicas são fatores essenciais nas pesquisas do Laboratório de Hemodinâmica. Nos indivíduos com doença arterial periférica, um dos focos dos estudos é a relação do treinamento com o sintoma da claudicação intermitente, que acomete parte desse tipo de paciente. Trata-se de uma dor progressiva que a pessoa sente nas pernas quando caminha determinada distância. A dor pode ser tão intensa que a pessoa tem que parar de caminhar e descansar um pouco para que a dor cesse. Essa dor é causada por uma obstrução nas artérias da perna.

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Pesquisador realiza testes no Laboratório de Hemodinâmica da Atividade Motora da EEFE

A docente e seus orientandos procuram determinar qual o melhor momento para esse paciente parar a caminhada durante o treinamento físico: logo no início da dor na perna ou no limite máximo da dor. Se por um lado alguns estudos demonstram que o treinamento até a dor máxima potencializa os efeitos benéficos, por outro lado, a professora acredita que o estresse metabólico produzido aumenta a inflamação nos pacientes, possivelmente prejudicando a própria melhora da caminhada e aumentando o risco cardiovascular. Esse fator é de extrema importância, já que 80% dos sujeitos com doença arterial periférica também tem hipertensão arterial e muitos são diabéticos, de modo que os eventos cardiovasculares são a principal causa de morte nesses pacientes.

“Andar até o máximo provoca um estresse no organismo que promove a inflamação e uma série de mudanças metabólicas que normalmente são maléficas. Nossa questão é: prescrever o treinamento num nível submáximo de caminhada pode gerar menos efeitos colaterais e trazer mais benefícios cardiovasculares para o paciente, causando o mesmo efeito no aumento da capacidade de caminhar?”, questiona a pesquisadora, que, atualmente, busca averiguar as vias metabólicas desse processo, realizando análises musculares e sanguíneas.

O risco do estresse metabólico do exercício em pessoas com claudicação intermitente é compensado pelo fato de que a caminhada regular melhora de forma expressiva a capacidade de caminhada desses pacientes, reduzindo a dor. Além disso, ela ajuda a melhorar a dilatação dos vasos sanguíneos e melhora o controle neural do sistema cardiovascular, auxiliando no controle da pressão arterial e de outros fatores de risco, como glicemia e colesterol. A pesquisadora enfatiza que, apesar da dor no caso dos pacientes com claudicação e da limitação dos hipertensos, o sedentarismo deve ser evitado ao máximo. “A tendência do paciente é andar cada vez menos, porque a atividade lhe provoca dor. Ele fica cada vez mais sedentário e isso piora sua condição, fazendo com que a dor apareça cada vez mais rapidamente”, comenta.

Projeto Exercício e Coração

A professora afirma que o sedentarismo deve ser tratado como um problema de saúde pública, sendo considerado a quarta causa de morte no mundo devido a sua ação direta e indireta nas doenças não-transmissíveis. Com o objetivo de atuar diretamente junto à população nesse aspecto, a docente lidera o projeto Exercício e Coração desde 2001. Realizado no Parque da Água Branca em São Paulo, o objetivo é oferecer gratuitamente à população informações sobre exercício e saúde, avaliação de risco cardiovascular para a prática de exercícios e prescrição/orientação individualizada de atividade física. Até 2017, já são 2500 atendimentos de avaliação e/ou reavaliação realizados.

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Atividade no Projeto Exercício e Coração

O projeto é majoritariamente caracterizado como um projeto de extensão, mas também compõe um rico ambiente de pesquisa, com a possibilidade de levantar dados interessantes sobre os hábitos de atividade física dos frequentadores do parque. Os 17 anos de projeto geraram informações que podem ser utilizadas em um contexto mais amplo, como recomendações à população em geral.

Por exemplo, depois de três a seis meses de atividade no Projeto, observou-se que os participantes, em geral, tiveram redução do índice de massa corporal e da circunferência da cintura – marcadores de obesidade -, além de redução do risco cardiovascular global.  Para completar, os hipertensos obtiveram redução dos valores de sua pressão arterial e os indivíduos que tinham colesterol elevado reduziram os valores do colesterol. Mesmo quem diz ter seguido as orientações apenas parcialmente, obteve melhores índices na aptidão física.

Em alguns dos primeiros estudos realizados com o Projeto, chegou-se à conclusão de que seria importante que os parques em geral tivessem algum tipo de orientação para a realização de atividade física de seus frequentadores. Isso porque, segundo a docente, quase 80% dos sujeitos que frequentam os parques tinham problemas de saúde que podem implicar em riscos na prática de exercícios não-orientados. Praticamente 90% das pessoas fazem exercícios no parque sem o acompanhamento de um profissional.

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Monitor realiza avaliação no Projeto Exercício e Coração

Mesmo assim, cabe ressaltar outro dado: cerca de 70% dos frequentadores receberam orientação médica para a prática de exercício. Claudia destaca, ainda, que é muito difícil essa população ultrapassar seus limites em termos de exercício. Pelo contrário: segundo o que foi observado no Parque, a maior parte das pessoas na faixa etária a partir dos 45/50 anos se esforça menos do que poderia durante a atividade física.

Por fim, a pesquisadora afirma que o importante é movimentar-se: “Do ponto de vista da saúde, a pior coisa é ser sedentário. É muito baixo o risco para a maior parte das pessoas se elas incluírem ao seu dia 30 minutos de atividade física leve a moderada. O único alerta é se o praticante sentir algum sintoma não esperado durante o exercício. No caso, deve-se buscar orientação médica”, completa.

 


Saiba mais:

Currículo Lattes de Cláudia Forjaz

Contato

 

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