O sentido do movimento

Por que o ser humano se movimenta? Quais são as razões essenciais à vida que levam uma pessoa a nadar, correr, superar-se nas mais diversas manifestações do movimento? Essas questões intrigam a pesquisadora Soraia Chung Saura e permeiam todas as suas pesquisas. Não apenas as razões que resultam no movimento, mas também o que impele as pessoas a escolherem determinadas atividades em detrimento de outras. O que pode parecer uma escolha espontânea tem relação com muitos fatores conscientes ou inconscientes como a cidade, o ambiente, as possibilidades apresentadas, o desejo, a personalidade e o fundo imaginário humano.

Para explorar esses assuntos, Soraia adota a abordagem antropo-filosófica. A docente explica que o olhar antropológico concentra-se em investigar  qual o significado de sua ação em um determinado contexto. Como exemplo, ela cita a corrida e seu significado para o humano: “Antes, o homem corria para fugir, para caçar, para percorrer longas distâncias. Até hoje ele corre para superar desafios. Se você perguntar a um corredor, ele vai fazer a mesma inferência, citando a conquista diária, a fuga de problemas cotidianos e a construção pessoal, por exemplo.”

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Praticante de corrida no Cepeusp – Foto: Cecília Bastos

Sob um ponto de vista mais filosófico, da fenomenologia da imagem, o objetivo é refletir sobre esses sentidos e significados, a partir de uma situação particular. É comum que saúde e qualidade de vida, por exemplo,  sejam apontadas como razões para se dedicar a um esporte. Mas o corredor frequentemente se lesiona, dorme pouco, causa danos ao seu corpo e atribui isso à busca pela saúde, causando uma aparente contradição que leva a um questionamento de ideias pré-estabelecidas. A pesquisadora propõe em seus estudos revisitar conceitos como estes, levando em consideração as diferentes facetas envolvidas.  

Segundo Soraia, esses sentidos e significados remontam notadamente a uma busca pela potência do movimento. Desde o início dos tempos, o homem potencializa a sua ação construindo ferramentas e instrumentos, utilizando animais para determinadas funções ou descobrindo formas de se locomover até lugares onde antes não se chegava. Essa busca é transmitida por gerações como um legado de desafios e possibilidades, a história humana no corpo, o imaginário.

Uma manifestação desse legado é o ato de Brincar. Diferente de um estudo de brincadeiras dirigidas com um propósito (desenvolver determinadas habilidades, por exemplo), Soraia investiga, em conjunto com outros pesquisadores da área,  o brincar espontâneo, observando do que a criança brinca e por que ela brinca, o que ela busca com essa ação. “A gente já viu que a criança não está brincando apenas num repertório adquirido, ela já nasce com uma herança imaginária, genética – o desejo por instrumentos de velocidade por exemplo, como carros, barcos, aviões”, explica.

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Crianças brincam em escola municipal.

A criança também está muito envolvida, como todos nós, com o conceito de superação, que não é exclusivo do alto rendimento, mas do humano e das relações que se estabelecem com o meio. Assim que ela completa um aprendizado ou termina uma brincadeira, ela quer buscar algo novo para aprender ou para jogar. Soraia relaciona essa superação ao próprio esporte – “é a história da humanidade superando a si mesma”.  A superação é um dos sentidos atribuídos ao esporte, e essa elaboração de sentidos às ações é uma ferramenta para a humanidade conviver com suas angústias e, em especial, com a consciência da morte.

Como o único animal a ter a percepção do fim de sua própria vida, o ser humano olha o tempo linear de maneira muito angustiante, com pontos definidos de partida (nascimento) e chegada (morte). Nessa questão, o Lazer – em seu sentido mais filosófico, como manifestação de um modo de vida – tem um importante papel na vida das pessoas. Do mesmo modo as manifestações dos Jogos Tradicionais,ao criar uma regularidade no tempo e no espaço. Festivais anuais, por exemplo, criam um tempo não-linear. “As tradições são criadas pelo homem com uma demarcação temporal. Então, todo ano, em vez de seguirmos em direção ao fim, nós voltamos ao mesmo ponto. Todo ano a gente se revisita numa temporalidade orgânica”, explica.

Os Jogos Tradicionais também ajudam a compreender o sentido do movimento por serem manifestações que acontecem há muito tempo e até hoje se mantêm. Em um mundo altamente tecnológico, crianças continuam a jogar pião, amarelinha, brincar com o boneco-boi, assim como os festivais populares continuam a acontecer e atrair multidões. Para Soraia, estudar os Jogos Tradicionais é investigar gestualidades e movimentos que fascinam o ser humano desde sempre.

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Oficina de Pipa no II Seminário Internacional de Jogos Tradicionais e Lazer, evento coordenado por Soraia em conjunto com a docente Ana Cristina Zimmermann

Esse fascínio é um dos fatores que levam pessoas a se apaixonarem por uma modalidade específica, dedicando-se a ela exaustivamente, muitas vezes sem a ambição de se tornar um atleta profissional. Para analisar esse tipo de atração, a pesquisadora passou a se concentrar mais especificamente nos praticantes de modalidades aquáticas. Ela e seus orientandos entrevistam atletas de mergulho, nado, travessia ou outra modalidade relacionada à água.

Com essas entrevistas, ela pretende abordar questões como a importância de estar em um meio diferente – e a superação envolvida neste tipo de desafio. Cita como exemplo a sensação de silêncio relatada pelos praticantes – “do silêncio de estar em outro ambiente onde você se volta para si mesmo; o praticante resolve suas próprias questões enquanto está nadando mecanicamente”.

A pesquisadora destaca duas sensibilidades das águas, duas formas com que o meio aquático atrai os praticantes dos esportes em questão. Uma delas é a busca pela beleza estética – o mergulhador, por exemplo, busca a exploração, a observação da natureza bela e colorida. A calma, a tranquilidade, esse estilo de vida-lazer. Outro ângulo é o enfrentamento das águas, o contato violento, levando de volta à questão da superação.

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Praticante de natação na EEFEUSP.

Essa dicotomia exploração/observação e enfrentamento/superação relaciona-se com a visão que Soraia tem sobre o movimento, que não engloba apenas a agitação, mas também calmaria e introspecção. Uma mescla de sensações muitas vezes relatada pelos próprios praticantes. A docente conta que uma de suas orientandas, Maria Hackerott, é praticante de vela e buscou sua linha de pesquisa para explicar aquilo que ela sente quando veleja. Para a estudante, os aspectos e estudos técnicos contribuem pouco para explicar sua paixão e envolvimento profundo pela modalidade.

A pesquisa do movimento do corpo humano e seus fenômenos como o Lazer, sob uma ótica filosófica tampouco oferece respostas simples e objetivas para questões como as de Maria. Mas certamente ajudam o ser humano a refletir sobre aquilo que sempre o intrigou. “Os grandes mistérios da vida provavelmente a ciência não soluciona de imediato, mas é importante pensar formas de elaborar, de aprofundar reflexões. O movimento humano, a corporeidade, tudo é vivido em nós e deve ser investigado com o potencial de nos conhecermos melhor enquanto espécie que sempre se movimentou”, conclui a pesquisadora.   

 


Saiba mais:

Currículo lattes de Soraia Chung Saura

Contato e outras informações

Página no Facebook do II Seminário Internacional de Jogos Tradicionais e Lazer

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