Uma perspectiva molecular

Insuficiência cardíaca e exercício sob uma ótica molecular

A cada dia, surgem novos estudos que comprovam os benefícios do exercício físico como parte do tratamento de pessoas com insuficiência cardíaca. O fato hoje parece solidificado no meio médico e científico, mas não foi sempre assim. Até o final dos anos 80, acreditava-se que o paciente com doença cardíaca não podia se exercitar. O raciocínio parecia fazer sentido: o exercício físico poderia exigir um esforço muito grande do coração em falência. Porém, com o passar do tempo, e com apoio de trabalhos científicos, esse conceito foi mudado.

Clínicos passaram a sugerir que o paciente se exercitasse e programas de reabilitação cardíaca ganharam visibilidade. Porém os mecanismos envolvidos nos benefícios do exercício físico ao cardiopata ainda estão sob intensa investigação. Nesse sentido, cientistas como a docente Patrícia Chakur Brum passaram a estudar minuciosamente os mecanismos moleculares por trás dos efeitos benéficos do exercício físico aeróbicos.

Desde 2003, Patrícia coordena o Laboratório de Fisiologia Celular e Molecular do Exercício da EEFEUSP, onde se pesquisa, em nível molecular, o exercício físico e seus benefícios nas doenças crônico-degenerativas. A professora explica que foi necessária uma mudança de paradigma para compreender esses mecanismos na insuficiência cardíaca, síndrome que é a via final comum de todas as cardiopatias. Antes, a síndrome era vista apenas sob a ótica hemodinâmica, ou seja: o coração é uma bomba que, no paciente cardíaco, não bombeia o suficiente. Para compreender por que o exercício físico na verdade auxilia no tratamento, foi preciso analisar a doença cardíaca de forma muito mais abrangente. Assim, foi adotada a perspectiva da insuficiência associada a um desequilíbrio neurohormonal.

IMG_9377.JPG

Laboratório de Fisiologia Celular e Molecular do Exercício

“O paciente com insuficiência cardíaca tem um aumento muito grande da ativação do sistema nervoso simpático. É como se ele estivesse sempre estressado, pois seus hormônios do estresse estão em nível alto. Em longo prazo, isso é extremamente tóxico para os músculos cardíaco e esquelético, então, o paciente apresenta intolerância aos esforços e redução na qualidade de vida”, explica a docente. Ela complementa que o exercício físico diminui esses hormônios do estresse, melhorando o prognóstico do paciente.

Outro importante aspecto explorado pelas pesquisas coordenadas por Patrícia é a caquexia, síndrome que acompanha a insuficiência cardíaca e caracterizada por uma grande perda de massa corpórea não intencional e em curto período de tempo. A pessoa caquética tende a ficar cada vez mais sedentária e isso leva a uma disfunção do músculo esquelético acompanhada de perda de massa muscular, massa gorda e massa óssea. Segundo Patrícia, a condição leva a uma longevidade menor, elevando a mortalidade em 20% em relação a outros pacientes com insuficiência cardíaca.

Para compreender os mecanismos dessa perda de massa muscular, a pesquisadora e seus orientandos passaram a estudar os sistemas de degradação e síntese de proteínas musculares em modelos animais com insuficiência cardíaca e em biópsias musculares de pacientes. Os estudos demonstraram não apenas uma degradação proteica aumentada, mas também a via de síntese proteica diminuída – ou seja, mesmo com uma alimentação normal, o paciente aproveita menos nutriente do alimento ingerido, o que contribui para a perda de massa muscular.

IMG_9343.JPG

Laboratório de Fisiologia Celular e Molecular do Exercício

A partir desses resultados, foram prescritos exercícios tanto para os animais com insuficiência quanto para os pacientes – neste último caso, os trabalhos foram feitos em parceria com o Instituto do Coração (InCor-FMUSP), com a Norwegian University of Science and Technology e com a Universidade La Sapienza  (Itália). Depois de quatro meses de treinamento físico aeróbico, observou-se que o exercício físico foi eficaz em reduzir a perda de massa e que o equilíbrio entre síntese e degradação proteica havia melhorado consideravelmente tanto em animais como nos pacientes.

“Observamos que o treinamento aeróbio melhora metabolismo muscular e isso favorece que o paciente perca menos proteína. Temos que pensar na pessoa como um todo, não só na perda de massa muscular, mas que ela tem um metabolismo todo alterado. O próprio exercício aeróbio, melhorando esses desajustes metabólicos musculares, favorece o indivíduo a não perder massa muscular”, afirma Patrícia.

Recentemente, a docente também começou a orientar trabalhos relacionados à perda de massa muscular em outra doença crônica, o câncer. Esses trabalhos integram um grande projeto de pesquisa com a participação de outros pesquisadores da EEFE-USP, do InCor-FMUSP, do Instituto do Câncer-SP e do Hospital Sírio Libanês. A pesquisadora explica que nesses pacientes a caquexia é muito mais severa, assim como o desequilíbrio nos sistemas de síntese e degradação proteica. A partir da investigação em músculos de animais com câncer, e comparando com animais saudáveis, a intenção é identificar quais proteínas estão alteradas e quais são responsivas ao treinamento físico aeróbico – ou seja, se o exercício físico pode trazê-las de volta ao normal.

IMG_9370.JPG

Laboratório de Fisiologia Celular e Molecular do Exercício

Inicialmente este estudo será feito apenas em modelos animais para depois aplicar em humanos. O objetivo é primeiramente observar se os pacientes têm alterações nas mesmas proteínas e, depois, se essa proteína pode normalizar a partir de um programa de exercício físico. Além disso, em outro estudo, um dos orientandos da professora irá observar se animais fisicamente ativos (roda giratória de atividade física) continuam a realizar atividades físicas voluntariamente após a inoculação do câncer. E mais: se a vida ativa pré-doença oferece algum tipo de proteção sobre o desenvolvimento da doença.

As pesquisas com treinamento físico aeróbico e câncer ainda estão no início, mas Patrícia acredita que há indícios dos benefícios em se trabalhar com exercício físico nesses pacientes e as pesquisas em animais podem dar embasamento a isso. Ela cita como exemplo desses indícios um estudo recente do Instituto Nacional do Câncer nos Estados Unidos, que demonstra que pacientes com melhor aptidão aeróbia têm maior sobrevida em 13 diferentes tipos de câncer – fato já comprovado na doença cardiovascular. Porém, a prescrição de exercícios físicos para esses pacientes ainda é um desafio, mesmo porque não se sabe quais as atividades o paciente vai conseguir fazer ou não.

Patrícia ressalta que o câncer frequentemente está associado a uma grave disfunção cardíaca devido à cardiotoxidade de algumas drogas utilizadas no tratamento quimioterápico. Fazendo um paralelo com o início dos estudos sobre insuficiência cardíaca e exercício físico, a cientista diz ter ainda um longo caminho pela frente nessa linha de pesquisa. Porém, com a experiência na parte cardiovascular e na perda de massa muscular e em parceria com oncologistas e uma equipe multiprofissional, será possível se aprofundar no conhecimento sobre o efeito do exercício físico aeróbico no câncer. No futuro, é possível que os benefícios do treinamento físico aeróbico também sejam demonstrados ao portador de câncer e os programas de reabilitação por exercício cresçam, assim como acontece já há anos para a doença cardiovascular.


Saiba mais:

Currículo lattes de Patrícia Chakur Brum

Contato e outras informações

Site do Laboratório de Fisiologia Celular e Molecular do Exercício

Anúncios

Um comentário sobre “Uma perspectiva molecular

  1. Parabéns professora. Que vossas pesquisas continuem sempre a melhorar a qualidade de vida das pessoas. Sucesso.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s